
Como realizamos a medição de malha de aterramento com a subestação em operação, sem necessidade de desligamento.
Por que medir a malha de aterramento sem desligar a subestação
Em muitas instalações industriais e concessionárias de energia, o desligamento de uma subestação para fins de manutenção preventiva é praticamente inviável. Processos contínuos, cargas críticas e penalidades contratuais por interrupção de fornecimento tornam o desligamento programado um evento raro, às vezes limitado a uma janela anual. Ainda assim, a malha de aterramento precisa ser periodicamente avaliada, já que sua degradação por corrosão, rompimento de conexões ou alteração da resistividade do solo compromete diretamente a segurança de pessoas e equipamentos.
Diante dessa realidade, desenvolveram-se técnicas de medição que permitem avaliar a integridade e a resistência de aterramento de uma malha mesmo com a subestação em plena operação. Essas técnicas não substituem a medição convencional em todos os cenários, mas são ferramentas essenciais quando o desligamento não é uma opção, permitindo diagnósticos confiáveis sem expor a operação a riscos de parada não programada.
A diferença fundamental em relação ao método convencional
O método clássico de queda de potencial, descrito em normas como a IEEE 81, parte de um princípio simples: injeta-se uma corrente de teste conhecida entre a malha e um eletrodo auxiliar afastado, e mede-se a diferença de potencial gerada por meio de uma haste de referência posicionada fora da zona de influência dos eletrodos. Esse método exige que a malha esteja isolada do sistema elétrico, pois qualquer corrente de fuga proveniente de cargas em operação, de neutros aterrados ou de outras malhas interligadas se soma à corrente de teste e distorce completamente o resultado.
Em uma subestação energizada, essa condição de isolamento simplesmente não existe. Há correntes circulando permanentemente pela malha, harmônicos, componentes de sequência zero e acoplamentos com outras malhas próximas, como as de subestações vizinhas ou de linhas de transmissão. Qualquer medição que ignore esse cenário produzirá valores sem significado prático. Por isso, os métodos aplicáveis a malhas energizadas precisam necessariamente diferenciar o sinal de teste do ruído elétrico de fundo presente na instalação.
Métodos empregados na medição com a subestação em operação
O método mais utilizado nesse contexto é a medição por corrente induzida com frequência seletiva, também conhecida como técnica do terrômetro de alicate (clamp-on) associado a filtros de frequência. Nele, um transformador de corrente do próprio instrumento induz um sinal de teste em uma frequência específica, normalmente diferente de 60 Hz e de seus harmônicos, sobre um trecho da malha. Um segundo alicate, posicionado em outro ponto do condutor de aterramento, mede a corrente resultante. Como o instrumento filtra eletronicamente apenas a frequência injetada, o ruído da rede é rejeitado e obtém-se a resistência daquele segmento específico da malha em relação ao restante do sistema de aterramento.
Outra abordagem consiste na injeção de corrente de baixa amplitude em frequência não harmônica da rede, combinada com voltímetros seletivos de frequência posicionados sobre hastes de referência. Essa técnica permite obter valores de resistência de aterramento global, de forma semelhante ao método de queda de potencial tradicional, mas com a vantagem de que o filtro eletrônico separa o sinal de teste da tensão de operação da subestação, tornando a medição viável mesmo com o sistema energizado. Também é comum utilizar essas técnicas de forma complementar, avaliando primeiro conexões e derivações individuais com o alicate e, quando necessário, complementando com a medição de resistência de terra pelo método seletivo.
- Verificação prévia da ausência de sobrecarga nos condutores de aterramento a serem manuseados
- Uso de EPI dielétrico e ferramentas isoladas certificadas conforme a NR-10
- Delimitação e sinalização da área de ensaio para restringir a circulação de pessoas não envolvidas
- Confirmação de que os alicates de medição possuem isolação nominal compatível com o nível de tensão do local
- Registro fotográfico e documental dos pontos medidos para rastreabilidade do laudo técnico
Cuidados de segurança específicos desse tipo de ensaio
Trabalhar em uma subestação energizada exige que toda a equipe de ensaio esteja treinada conforme a NR-10 e ciente dos riscos de choque elétrico e de arco elétrico presentes no ambiente. Diferentemente de uma medição em malha desligada, o técnico manuseia condutores e conexões que, embora normalmente estejam em potencial de terra, podem apresentar elevações de tensão momentâneas em caso de falta simultânea no sistema. Por isso, o uso de luvas isolantes, calçados dielétricos e ferramentas com isolação adequada não é opcional, mesmo quando o ponto de medição parece seguro à primeira vista.
Também é fundamental respeitar os limites de potenciais de passo e de toque estabelecidos pela NBR 15749, que orienta a metodologia de medição e os critérios de aceitação para esses potenciais em subestações. Durante o ensaio energizado, a equipe deve considerar que a própria injeção de corrente de teste, ainda que de baixa amplitude, ocorre em um ambiente onde já existem correntes de falta potenciais e gradientes de tensão no solo. O planejamento do ensaio deve incluir a análise prévia do diagrama unifilar e da malha, identificando pontos de inspeção que não exijam a abertura de conexões críticas de aterramento de equipamentos em operação, como para-raios, transformadores e disjuntores.
Quando optar por cada abordagem
A escolha entre a medição energizada e a convencional desenergizada depende do objetivo do ensaio. Quando se busca o valor de resistência de aterramento global da malha para fins de laudo de conformidade com a NBR 5419 ou com normas de segurança do trabalho, a medição pelo método de queda de potencial, realizada em condição desenergizada e com a malha isolada, ainda é a referência mais precisa. Já quando o objetivo é o acompanhamento periódico da integridade das conexões, a identificação de trechos com resistência anormalmente elevada, ou simplesmente a impossibilidade operacional de desligamento, os métodos seletivos em frequência aplicados com a subestação energizada oferecem um diagnóstico confiável e rastreável ao longo do tempo.
Na prática, um programa de manutenção bem estruturado combina as duas abordagens: medições energizadas em intervalos mais curtos, como parte da rotina preditiva, e uma medição convencional completa nas raras janelas de desligamento disponíveis, servindo como referência de calibração e validação dos resultados obtidos ao longo do ano. Essa combinação garante que a subestação permaneça continuamente monitorada sem comprometer a disponibilidade da instalação nem a segurança das equipes envolvidas no ensaio.
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