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Proteção

Gêmeo digital de um relé de proteção: o modelo contra o relé real em bancada

Gêmeo digital de um relé de proteção: o modelo contra o relé real em bancada

Modelamos o relé Pextron URP6100 função por função em MODELS (ATP-EMTP) e colocamos o modelo frente a frente com o equipamento físico: as mesmas faltas simuladas, exportadas em COMTRADE e reinjetadas em bancada com mala de teste. Nove tempos de atuação cronometrados, desvio médio de 11,4 ms (cerca de dois terços de um ciclo em 60 Hz) e nenhuma atuação indevida. Este artigo mostra como foi feito e o que a bancada ensinou que a simulação sozinha não mostraria.

Todo estudo de proteção termina em um número: o ajuste que vai para o relé. O que sustenta esse número é um modelo da rede, da fonte e, cada vez mais, do próprio relé. E modelo é hipótese até que alguém o confronte com o equipamento. Esta campanha foi exatamente isso: um modelo de relé multifunção desenvolvido em MODELS, a linguagem de modelagem do ATP-EMTP, levado à bancada e comparado com o relé físico função por função e milissegundo a milissegundo.

Por que modelar o relé, e não apenas o sistema

Estudos de proteção em sistemas com geração fotovoltaica têm uma dificuldade que os estudos convencionais não tinham: o comportamento de curto-circuito do inversor é ditado por controle, não pela física de uma máquina síncrona. A corrente de contribuição é limitada eletronicamente, tipicamente entre 1,1 e 1,2 pu, praticamente sem sequência negativa, e com o ângulo do fasor dependente da lógica de ride-through (LVRT). Elementos direcionais, de distância e de sobrecorrente enxergam essas faltas de forma muito diferente do que a intuição clássica sugere.

Nesse cenário, ajustar a proteção de interligação de uma usina exige simular o conjunto completo, com rede, transformador, inversor com LVRT e o próprio relé, no domínio do tempo. Para isso, desenvolvemos um modelo do relé Pextron URP6100 em MODELS, reproduzindo o algoritmo do equipamento real: estimação fasorial por DFT de ciclo completo com 16 amostras por ciclo, unidades direcionais duplas de fase e de neutro (67 e 67N, com os sentidos consumo e exportação independentes), sobrecorrente de sequência negativa (46), elementos de tensão (27, 59 e 59N), direcional de potência (32) e restrição por tensão (51V).

Circuito do intertie da usina fotovoltaica no ATPDraw: fonte equivalente da rede, alimentador, o bloco do relé URP6100 com suas medições, transformador delta-estrela aterrado, bloco de controle do inversor e arranjo fotovoltaico com entradas de irradiância e temperatura
O sistema de estudo no ATPDraw, com o modelo do relé (bloco URP6100) medindo tensões e correntes no ponto de conexão. À direita, o inversor com sua malha de controle e o arranjo fotovoltaico.

Um modelo com esse nível de detalhe só tem valor de engenharia se for validado contra o equipamento físico. Foi o que fizemos.

Metodologia: da simulação à bancada

O sistema de estudo é o intertie de uma usina fotovoltaica de 1 MVA, com inversor grid-following com LVRT conforme os requisitos do ONS e transformador Δ/Yn, conectada a uma rede de 13,8 kV por um alimentador longo. O relé de interligação enxerga tensões e correntes no ponto de conexão, com os TCs referenciados no sentido da usina.

O ciclo de validação, repetido para cada cenário de falta, tem quatro etapas:

  • Simulação do cenário no ATP-EMTP com o modelo do relé, gerando o gabarito de atuação: quais funções operam e em quantos milissegundos
  • Exportação das tensões e correntes do ponto do relé em formato COMTRADE
  • Reprodução do COMTRADE no relé físico por meio de mala de teste secundária, com o equipamento parametrizado com os mesmos ajustes do modelo
  • Leitura da oscilografia interna do relé, incluindo os sinalizadores de partida e trip de cada função extraídos do registro proprietário do equipamento, e comparação com o gabarito simulado
Resultado da simulação no PL4View: painel superior com as três tensões, painel intermediário com as três correntes e, abaixo, uma trilha digital por função de proteção do modelo do relé, com dois marcadores de tempo e a caixa de leitura numérica mostrando o intervalo entre eles
O gabarito simulado. Acima, tensões e correntes no ponto do relé; abaixo, uma trilha digital por função de proteção do modelo. Os dois marcadores delimitam o intervalo lido na caixa central, que dá o tempo de cada atuação em relação ao instante da falta. É esse conjunto de tempos que a bancada precisa reproduzir. Visualização no PL4View.
Bancada de ensaio: mala de teste Conprove CE-7012 com o relé Pextron URP6100 ao lado, ligado às saídas analógicas de tensão V1 a V3 e de corrente I1 a I3 por cabos vermelhos e pretos
A bancada. O relé Pextron URP6100, à esquerda, recebe pelas saídas analógicas de tensão e de corrente da mala Conprove CE-7012 exatamente as formas de onda calculadas no ATP. É injeção secundária: o relé não sabe que a falta veio de uma simulação.
Painéis de tensão e de corrente no software de transient playback da mala de teste, com o COMTRADE do ensaio bifásico carregado: as tensões afundam e duas correntes crescem no mesmo instante em que a falta é aplicada na simulação
O mesmo transitório, agora saindo da mala de teste para as entradas do relé, aqui com o COMTRADE do ensaio bifásico. As tensões e correntes calculadas no ATP são reproduzidas em amplitude e forma de onda, ciclo a ciclo, na injeção secundária: não é um degrau de corrente, é o transitório do estudo.

Três cenários foram ensaiados: curto trifásico no sentido da usina, curto monofásico no sentido da rede (executado duas vezes, para verificar repetibilidade) e curto bifásico no sentido da usina, este último excitando simultaneamente elementos de fase, de neutro, de sequência negativa e de tensão.

Resultado 1: as grandezas analógicas

Antes dos tempos, a base de tudo: as grandezas que o relé mediu na bancada contra as que o ATP calculou. Se as formas de onda não chegam iguais, comparar tempos de atuação não significa nada. A aderência ficou entre 0,3% e 2%.

Grandeza (valores secundários)ATPBancadaDesvio
Corrente de falta, curto 3F39,7 A39,4 A≈ 1,5%
Tensão na falta 3F18,1 V17,9 V≈ 1%
Tensão da fase faltosa, curto 1F15,88 V16,00 V0,4%
Sobretensão das fases sãs, curto 1F95,4 / 78,8 V94,9 / 78,6 V0,4%
Tensão residual 3V₀, curto 1F118,7 V118,1 V0,4%
Fase sã no bifásico94,2 V (1,42 pu)93,96 V (1,41 pu)0,3%
Corrente do inversor na fase sã4,60 A4,51 A≈ 2%
Oscilografia interna do relé Pextron URP6100 lida na bancada, com as correntes IA, IB e IC subindo no instante da falta, a corrente diferencial ID nula e as tensões VA, VB e VC afundando simultaneamente, com a marca amarela do ponto de disparo
O curto trifásico como o relé físico o registrou: correntes subindo e tensões afundando no mesmo instante, com a marca amarela indicando o ponto de disparo. É este registro, medido pelo equipamento, que sustenta a coluna “Bancada” da tabela acima.

Um detalhe ilustra o nível de fidelidade alcançado: a impedância de falta reconstruída a partir do próprio registro do relé, dividindo tensão por corrente durante o curto trifásico, resultou em 5,46 Ω. É a resistência de falta de 5 Ω usada na simulação somada à impedância do trecho de linha até o ponto de defeito.

Resultado 2: os tempos de atuação

Com as grandezas conferidas, a comparação que interessa é a dos tempos. Todos os valores abaixo são contados a partir do instante de aplicação da falta, tanto na simulação quanto na bancada, e o desvio é a diferença entre bancada e ATP: negativo quando o relé real atuou antes do modelo, positivo quando atuou depois.

EnsaioFunção (trip)ATPBancadaDesvio
1: 3F, sentido UFV50F (67t1, consumo)160,5 ms152,1 ms−8,4 ms
1: 3F, sentido UFV27 (subtensão)255,3 ms249,0 ms−6,3 ms
2: 1F, sentido rede59N (sobretensão residual 3V₀)401,1 ms422,9 ms+21,8 ms
2R: 1F, repetição59N (sobretensão residual 3V₀)401,1 ms426,0 ms+24,9 ms
3: 2F, sentido UFVTrip geral (1º elemento)162,5 ms154,2 ms−8,3 ms
3: 2F, sentido UFV50N (67Nt1) *162,5 ms142,7 ms−19,8 ms
3: 2F, sentido UFV50F (67t1) *163,6 ms169,8 ms+6,2 ms
3: 2F, sentido UFV50Q (46, instantâneo)207,3 ms205,2 ms−2,1 ms
3: 2F, sentido UFV59N (sobretensão residual 3V₀)401,1 ms406,2 ms+5,1 ms

* No empate técnico entre 50N e 50F no ensaio bifásico, com 1,1 ms de separação na simulação, a atribuição de cada registro da bancada às duas funções é indistinguível na oscilografia. Os desvios dessas duas linhas podem estar trocados entre si; o par, somado, continua consistente.

Trilhas digitais na memória do relé mostrando, para cada fase, o sinalizador de partida subindo alguns ciclos antes do sinalizador de trip correspondente das unidades direcionais de sobrecorrente
As trilhas digitais do relé físico no curto trifásico. Para cada fase, a partida (PART) sobe no instante da falta e o trip (TRIP) só depois, ao fim da temporização ajustada. É a leitura desses sinalizadores, e não do contato de saída, que permite cronometrar função por função.

São nove trips cronometrados, com desvio médio absoluto de 11,4 ms, cerca de dois terços de um ciclo em 60 Hz, e pior caso de 24,9 ms, todos dentro da classe de exatidão de ±35 ms do equipamento. Tão importante quanto os desvios: em nenhum dos ensaios uma função atuou na bancada onde o modelo indicava que não deveria atuar. As unidades direcionais de exportação permaneceram mudas nas faltas internas, as de consumo nas faltas externas, e os elementos de neutro e de sequência negativa discriminaram corretamente o tipo de falta.

Três achados da campanha, porém, não estavam no modelo. Apareceram no ferro.

A margem do pickup fixo em usina com inversor é inviável

A unidade de sobrecorrente no sentido de exportação foi propositalmente ajustada na janela estreita que existe entre a corrente de carga (4,18 A secundários) e o teto de contribuição do inversor (4,60 A): cerca de 10% de separação entre o que a proteção não pode enxergar e o máximo que a falta oferece. Nos dois ensaios monofásicos, a oscilografia do relé real mostrou a partida dessa unidade ligando e desligando repetidamente nos primeiros ciclos da falta, enquanto o controle do inversor rampava a corrente. É a demonstração, em hardware, de por que sobrecorrente de pickup fixo não é solução confiável para detectar faltas alimentadas por inversor, e de por que a restrição por tensão (51V) e os elementos de tensão residual (59N) e de subtensão são o caminho correto nessa direção.

Cada temporizador tem sua assinatura

O elemento 59N, temporizado em 400 ms, atuou com +21,8 ms e +24,9 ms de desvio em dois ensaios independentes: um viés sistemático da ordem de 5% a 6% do tempo ajustado, repetível, característico do temporizador do equipamento. Não é erro do modelo nem falha do relé; é o comportamento real de um temporizador dentro da sua classe de exatidão. Conhecer essa assinatura permite refinar margens de coordenação com base em comportamento medido, e não apenas em tolerâncias de catálogo.

A função 46 estreia no ferro

A sobrecorrente de sequência negativa é especialmente relevante em redes com inversores, justamente porque eles quase não produzem I₂ e o pouco que aparece precisa ser interpretado com precisão. Sua estreia em bancada, no ensaio bifásico, ficou a 2,1 ms do modelo: um oitavo de ciclo.

Conclusões

  • É viável construir, em MODELS/ATP-EMTP, um modelo de relé comercial fiel o suficiente para reproduzir o equipamento físico com desvios da ordem de meio ciclo, validado função a função com injeção secundária das mesmas faltas simuladas
  • O ciclo simulação → bancada é o que dá lastro ao estudo: onde modelo e relé divergiram, a divergência foi localizada, explicada e corrigida; onde concordaram, a concordância foi medida, não presumida
  • Para usinas fotovoltaicas, a campanha confirmou na prática os pontos críticos da proteção de interligação com geração inversora: contribuição de curto limitada pelo controle, margens inviáveis para sobrecorrente convencional no sentido de exportação e o papel central dos elementos 59N, 27, 46 e 51V

A metodologia de modelo validado, gabarito de tempos e ensaio de bancada transforma o estudo de proteção de um exercício de simulação em um resultado verificado ponta a ponta, pronto para sustentar ajustes de campo com evidência objetiva.

A Cezário Engenharia desenvolve e valida modelos de relés e de inversores para estudos de proteção no ATP-EMTP, com verificação em bancada por injeção secundária. Se a proteção de interligação da sua usina foi ajustada a partir de um modelo que ninguém confrontou com o equipamento, esse é o momento de medir.

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